Sobre o amor… Amor?

Eduardo chegou tímido, nitidamente desconfortável em sentar em meus acentos. Faltavam-lhe as palavras, pediu um café, falou sobre amenidades e pediu para acender um cigarro, confesso que eu fumaria junto, porém minha dona não gostou muito da ideia.

Rodeios e mais rodeios, em um instante senti o gelar do seu coração, a tristeza invadiu meus acentos e finalmente Eduardo mostrou o que de fato o trouxe em meus acentos. Lágrimas escorriam sem controle, suas mãos e gestos transbordavam medo, angustia e sofrimento. Esse foi o enredo do primeiro encontro, entre o café frio, lágrimas e sentimentos em processo de catarse.

No segundo encontro o mesmo inicio rodeios, cafés, e muitas amarras. No meio do nosso encontro as primeiras palavras floresceram no desabrochar das lágrimas… Mais alguns encontros e Eduardo não mais controlava o inevitável e latente em seu emocional.

Relatos de uma infância dura, exposto muito cedo a ambiente emocionalmente tóxico, abandono emocional, adolescência regada a fugas e paixões mal resolvidas prato cheio para a chegada da fase adulta turbulenta.

Casou-se por amor, ahhh… o Amor! Ao ouvir seu relato de amor, senti em cada pedaço de meus tecidos somente paixão. Paixão e desejo, os quais sucumbiam seu desejo mais latente: SER AMADO… Com tantas travas emocionais Eduardo não fazia ideia do real motivo pelo qual sentava todas as quartas-feiras em meus acentos. Seus ideais sobre a vida e seu potencial de se tornar um ser único encontravam-se em desequilíbrio.

Muitos e longos encontros mais e os primeiros nós começaram a afrouxar, com muito empenho e delicadeza Eduardo deparou-se  como o significado de amar… Poderia citar inúmeros filósofos com ideais sobre amor e sua complexidade, porém vou me ater ao sentimento que meus tecidos cinza sentiram vibrar quando a “caixa-preta” de Eduardo foi aberta. De inicio o vazio permeou cada molécula de seu ser, logo após a carência, sintoma pertinente e recorrente em seus discursos retirou o véu que o cegava e o desejo latente, que pulsava intensamente em suas profundezas eclodiu com tamanha força que o choque aconteceu. A apatia e estagnação aparentes perduraram por mais alguns encontros, os quais necessitaram de tamanha sutileza que era quase imperceptível  o avançar. Que processo lindo! Um dos processo mais intensos que eu um pequeno sofá cinza tive a honra de presenciar.

Entre momentos de descanso, escaladas intensas e caminhadas tranquilas, no desenrolar Eduardo permitiu-se amar e ser amado! Espalhando e recebendo amor, que o mesmo compreendeu não haver limites de tempo e espaço, amor que o salvou e o libertou, que curou não  apenas o personagem de mais um conto, amor que alimenta e cura a humanidade, amor que vocês humanos possuem o privilégio de sentir e presenciar no olhar de seus filhos, no abraço de um amigo, no afago de uma mãe, na preocupação material inerente aos pais provedores, nos conselhos dos avós, nas risadas fartas de amigos, na admiração de um colega, na doação de pessoas em prol de uma causa, no bem querer da vida!

Ahhh… humanos que choram, sorriem, brigam, desperdiçam tempo de vida com tantas dores e mal sabem que o bálsamo para suas angustias e dores está em si mesmo, no cuidar e preservar, na potência que têm de amar e permitir ser amado!

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A Ingenuidade autêntica dos guerreiros!

 

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Sr. Antônio todas as terças-feiras trazia seu neto Lucas para meus acentos, Lucas que quase não parava quieto em meus acentos, uma típica crianças “normal” e cheia de energia.  Mas Lucas será tema de outro conto.

Sr. Antônio dono de um semblante incomum para os dias atuais, de uma serenidade assustadora, tão natural que passa despercebido por aqueles que não tiveram a oportunidade de desenvolver a sensibilidade.

Sr. Antônio em uma bela tarde chegou sozinho. Confesso que fiquei surpreso. Homem maduro, com uma paz transbordando pelos seus poros, querer de livre e espontânea vontade sentar-se em meus acentos… O que o trazia aqui?

Sem delongas iniciou seus relatos, cheios de verdade e profundamente assustadores, daqueles de arrepiar os fios dos cabelos dos mais habituados a todos os tipos de sentimentos, dos positivos aos negativos. Relatou seu longo e sofrido casamento ao qual durou mais de 30 anos e ao relatar puder sentir o quanto de coragem havia em suas palavras sobre sua falecida esposa e seus três filhos.

Continuou seu relato de vida e nesse momento percebi em todos os mínimos pedaços de meus acentos o presente que eu um singelo sofá cinza estava ganhando… Um relato de vida único e de grandeza maior. Falava de amor, de dor, de felicidade, de medo, de alegria, de tristeza, de trabalho duro, de diversão, de cumplicidade, de traição, de plenitude, de preocupação, do passado, do presente e do futuro… Da criança, do jovem, do adulto e do senhor que habitava em todas as instâncias a mente do Sr. Antônio.

Quantos sentimentos, histórias, fases, a vida humana tem a oportunidade de experienciar? Quanto de vida à para se viver, mesmo a mercê da sorte ou das dificuldades? Em cada ser existe um universo de potencialidades e o encontro de dois, três, quatro… universos humanos carrega as mais infinitas possibilidades de vivências e aprendizagens. Os encontros ou os desencontros ao longo da jornada de vida de cada um é que determina o semblante sereno, puro, sofrido, triste, alegre…  Você determina o tom, o sabor da sua jornada… Você tem o poder de escolha. Para uma escolha, uma decisão, para uma decisão uma duvida para uma dúvida uma resposta, para uma resposta uma ação…

Sr. Antônio homem de olhar autenticamente sofrido pelas decisões de vida… Homem de coragem nas palavras… Homem de ingenuidade nas decisões, homem? Sr. Antônio um guerreiro da vida, que como todos os grandes guerreiros soube escolher suas batalhas, teve honra em suas derrotas e com a guerra da vida no fim conquistou a serenidade de uma vida plena e uma jornada de luz.

Vestido Branco e Cabelos Vermelhos

 

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Catarse: Provocar em outra pessoa de forma controlada, o despertar de emoções contidas e onitidas, que precisam ser despertas e expostas, para liberação de bloqueios emocionais.

 Gabriela chegou numa manhã ensolarada. Seu lindo sorriso trazia o sol para dentro da sala e suas emoções mais intimas esquentavam meus acentos. Mulher de sorriso tímido, olhar místico, dona de uma suavidade que escondia o furação que a enchia de vida. Assim Gabriela veio ao meu encontro, sem saber utilizar o que havia de melhor; seu poder de transmutação.

Mulher determinada, forte, mas que chegou aqui enfraquecida, enfraquecimento este no que há de mais belo na essência feminina: a intuição. Nossos encontros eram longos, carregados de medos e temperados pela falta de confiança em si mesma.

A confiança abalada é capaz de bloquear os mais belos raios de luz e expansão de uma mulher. O resgate, a libertação da energia feminina na sua totalidade vai além do empoderamento, é uma catarse profunda e transformadora, que provoca a quebra de paradigmas, corporais, sociais, emocionais dos quais a maioria das mulheres aprisionam-se ao longo do tempo.

Tempo… o quanto relativo é a existência no tempo e a existência permeia um existir em um determinado espaço… Espaço que ocupa ou incomoda o vazio, o vazio das relações amenas, frias e aparentes… Relações estas cheias de mascaras, espertezas e interesses… E qual o maior dos interesses? Seria o existir no tempo e preencher o espaço com a verdade da alma?

Gabriela chegou para mais um encontro, porém desta vez estava diferente, havia um brilho em seu olhar que transbordava paixão, ao sentar-se em meus acentos, senti o pulsar forte de seu coração, que hoje transbordava amor… Ah! E seus cabelos, pareciam chamas de fogo prontas para aquecer  tudo ao seu redor…

A menina que habita o seu intimo que lhe trazia a pureza das brumas brancas com o passar dos anos deu lugar a uma moça de sorriso fácil e com vontade de mudar o mundo, esta por sua vez cedeu espaço para uma mulher cheia de vida, dona da chama do amor… A mulher dos cabelos vermelhos!

Toda transformação exigi força e coragem para que o sofrimento não prevaleça diante a dúvida, o medo e a angustia. A maturidade traz a responsabilidade e a leveza de ouvir o coração, a intuição da menina de pés descalços e vestido branco, carrega a força e o poder do fogo que emana dos olhos da moça e que a mulher os carrega no arquétipo do seu manto vermelho.

Quantas Gabrielas existe em você? Quantas meninas de vestido branco, quantas moças de sorriso nos olhos e quantas mulheres de cabelos vermelhos? Em momentos decisivos, a Gabriela deu voz a sua menina, empoderou o olhar apaixonante da linda moça e abriu espaço para sua bela mulher realizar sem medo, sem dúvidas e com muita coragem no seu caminhar!

Aperte o “PLAY”!

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“Boa tarde, como vai?” Disse George ao entrar na sala e sentar-se em meus acentos. Alto, esguio, elegante, com um charme natural. Iniciou seu discurso sobre o quanto era “mal compreendido” pelas pessoas as sua volta. Chefe, colegas de trabalho, familiares, filhos e amigos. Em todas as vezes que George vinha ao meu encontro uma situação conflituosa onde os que estavam ao seu redor entravam em conflito com George.

No futebol, seu time era o melhor, no trabalho sua forma de conduzir um projeto era o melhor, com amigos no churrasco de domingo suas opiniões eram as melhores, em reuniões familiares sua conduta era a mais exemplar…

Eu pensava “pobre George” quantas certezas incertas, quantos pesos nas costas,… Até mesmo aqui em meus acentos, quanta necessidade de provar que todos estão errados e sua conduta é a mais honesta e claro “A MELHOR”!

Quanto sofrimento envolto a uma casca dura e densa de uma vida de aparência, ego e julgamentos. O que se enxerga no outro é o próprio reflexo. “Eu só dou aquilo que possuo dentro de mim”.

Apertar o “play”, é despertar no outro suas piores faces, o eu mais obscuro e menos quisto, é expõe-se ao reflexo.  Ah! Mas é claro que é do “outro”, a altivez, mas a elegância é minha, a arrogância é do outro a sensatez é minha, a prepotência é do outro o equilíbrio é meu… Olhar para o espelho que o outro representa e identificar-se, reconhecer o potencial de desperta no outro as piores faces e colocar-se a prova, em julgamento, o julgamento de si mesmo diante ao espelho representativo do outro não é tarefa das mais prazerosas.

Neste raciocínio a perguntar que surge é: Como despertar o melhor no outro? Como apertar o “play” do outro de forma a disparar sua melhor versão? O ponto de partida para estes disparos está dentro e não fora, se o outro reflete como um espelho a sua face, o reflexo irá se alterar a partir mudança interna “Só se reconhece aquilo que está internalizado”.

O gatilho para o disparo assertivo está dentro do George e como ninguém é 100% bom e nem 100% ruim, somente reconhecendo, trazendo a superfície  a clareza e a capacidade de transitar nos polos: positivo e negativo, bom e mau, alegria e tristeza, alivio e dor, forte e fraco, descontrole e equilíbrio, completude e solidão, entre outros, resolve-se esta equação, seja ela mental, no campo dos sofrimentos, seja ela física, no campo das doenças, seja ela química, no campo das relações.

George, que com sua “casca” rígida a qual a reflete e não a reconhece como sua, vibra na polaridade negativa do seu self, limitando-se ao reflexo distorcido do outro e da maneira a qual escolheu para dançar a dança da vida.

E você qual botão quer disparar? Que musica irá tocar ao apertar o Play? 

Novo Ciclo

 

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Confesso que ela visita pouco meus acentos, pois normalmente está no acento da minha colega a “Poltrona Branca”, mas neste ultimo mês me visitou assiduamente.

Foi um mês intenso, de imersão. Hoje o conto é dela, minha dona, Bruna, quem eu apelidei de “A Inquieta”. Chegou aqui com “O Grande Vazio”. Silêncios profundos tomavam conta de nossos encontros, os quais eu mal compreendia. O que a traz aqui em meus acentos?

Todos os dias, ela permanecia aqui, em silêncio. Foi difícil de entender, mas o seu silêncio fala, ou melhor, ele GRITA, com tamanha força que os mais insensíveis ouviam.

Em cada silêncio uma transformação profunda, cada silêncio um sentido fazia-se presente e após longos silêncios, aconteceu… A conexão de todos os sentidos! Desde as intemperanças até ao equilíbrio, um por um foi vivido, revivido até que a essência mais genuína tomasse conta de nossos encontros.

Alguns encontros mais e finalmente uma frase… “Se você não muda a vida muda por você.”

Muitos dos que se sentam por aqui, encontram-se em sofrimento por não atribuírem significado as suas experiências, bloqueando o processo de esvaziamento mental, “entulhando” a mente com ideias e verdades absolutas as quais nada têm mais a oferecer senão o sofrimento e esgotamento.

O adoecer surge à medida que não se vislumbra mais um sentido. Alguns adoecimentos são fundamentais para o amadurecimento. Na verdade, diante de determinada dor da alma, assistida pelo corpo, “deveríamos aprender a ser-lhe gratos, caso contrário, teremos um desencontro com ela e perdido a oportunidade de conhecer quem somos. Não é ela que é curada, mas ela que nos cura. A pessoa está doente e a doença é uma tentativa da natureza de curá-la” (JUNG).

A roda da vida com suas descidas e subidas, a cada resistência uma nova dor, uma nova doença, uma nova oportunidade e assim quantas vezes forem necessárias, até que se pare de lutar contra e as feridas das lembranças dolorosas sejam cicatrizadas. A cicatriz é o ultimo vestígio de dor e também o troféu da conquista, não a conquista da vitória, mas a conquista da plenitude, do silêncio e do encontro do SER. Afinal, “só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos” (JUNG).

O vazio existencial dá o tom para que o conflito arraste para experiências passadas, direcionando ao fundo da alma, enquanto o sentido do viver impulsiona para o futuro rumo à plenitude da existência. Um traz o necessário embate com dores amplamente arraigadas. Já o outro faz com que essas dores negligenciadas, sejam ouvidas, assumidas e transformadas. Os conflitos se repetem vida afora até serem conscientizados.

Os ciclos da vida, repletos de sabedoria, sempre em movimento e mudança contínua, permitindo dialogar com os silêncios que gritam, com o vazio “entulhado” da mente proporcionando a difícil, senão insuportável, tarefa de fluir para trás onde no regressar, no olhar-se para dentro indo ao encontro da doença (física ou mental) está o seu antídoto e o potencial de sua cura.

Como disse o sábio Almir Sater

“Cada ser carrega em si o dom de ser capaz… de ser feliz!”

Retiro Existencial

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Cristina chegou com muito frio, havia esquecido seu casaco, foi nosso primeiro encontro, deixou seu corpo repousar sobre meus acentos e senti o pulsar de seu coração que paulatinamente se tranquilizou, pegou uma xícara de chá para aquecer-se.

Aos 41 anos em seu segundo casamento, como todos que aqui chegam, veio em busca de alivio, porém com a consciência quase que total de sua busca… Eu disse “quase”, rs!

Iniciou seu discurso sobre um retiro que havia feio, o ultimo, pois já era o oitavo retiro que se propunha a fazer e voltava sempre com a sensação de incompletude. Reclamava sempre, do frio, da chuva, do calor, de acordar cedo, dos compromissos, do ex-marido, do atual marido, da filha, da irmã, da amiga, do trabalho, de estar aqui…

O arquétipo da vítima, sempre preocupada com tudo e com todos, porém recentemente sentiu a necessidade de preocupar-se consigo mesma. Como toda ansiosa de plantão, correu para “o oráculo” (Gloogle, apelido carinhoso), depois para as amigas nas conversas no salão de beleza entre uma escova e esmaltes nas unhas.

Com muita determinação, seguiu o “roteiro”, iniciou seu processo de transformação. Aulas de yoga, meditação, mudança de alimentação, novos hábitos para velhos costumes. Durma as 22h00, acorde às 06h00, leia um livro, caminhe mais, tome mais água, coma menos, zero carne, sem lactose, sem glúten, sem açúcar e a vida começou a lhe parecer sem graça, quase que sem “tempero”…

As reclamações acabaram? Não. Cristina encontrou outro lugar para elas, isso mesmo, meus acentos!Eu sempre ouvia as seguintes frases:

“Eu faço tudo tão certinho, porque ainda não me sinto plena?”

“Porque ainda não encontrei a tal paz interior?”

Exatamente por ser interior… A dieta da moda, hábitos saudáveis, retiros e mais retiros, podem colocar na direção do caminho, mas não o fazem caminhar. A reclamação e insatisfação estão dentro, porém Cristina não se permitia entra em contato com o seu intimo, algo ou alguém sempre eram os motivos.

Não gosto dos chicles, se tivesse que optar por um, o de Cristina seria: “Pior cego é o que não quer ver”. Fundo do poço… Nenhum ser humano gosta de admitir que chegou lá,  muito menos reconhece que chegou nele e se por acaso o reconhece quer imediatamente sair. O que existe “nele” de tão ruim? Eu diria que a verdade, nua e crua a face mais obscura que existe em cada um que chega aqui. Aquela face que não está nas redes sociais, que não se encontra no supermercado nem tão pouco nos bares, restaurantes, festas de família e nos escritórios.

Que tal um retiro “nele”? Isso mesmo, uma imersão no fundo do poço, sem atalhos, sem empurrões ou impulsos para sair mais rápido, sem escadas. Somente você e toda a poeira da sua vida, tudo o que se guarda no porão da alma, a sujeira por trás de todos os sorrisos doloridos, toda a névoa escondida por trás de cada sonho não vivido, o mofo de cada sentimento reprimido. Quer lugar melhor para um retiro do que dentro da sua própria angustia.

É exatamente neste lugar que nascerá a força de Cristina, aquela força inabalável, forte e simples, que diante a qualquer desafio, ao menor dos sinais de que a o “carrinho da montanha russa” chegou ao topo e que a ladeira será inevitável Cristina irá levantar as mãos e se divertir durante a queda e  subirá novamente com tamanha força que a próxima subida será leve, com esforço sim, porém sem bolhas nos pés.

Cristina iniciou outro retiro o nono… Sem máscaras, e principalmente sem medo do que enfrentar, pois o enfrentamento era do conhecido, de tudo que já continha em sua essência. Não se apressou, demorou o necessário para entrar em contato com cada um dos fantasmas, que agora já lhe são tão amigável. Quando estava pronta emergiu de seu poço plena, feliz, com a certeza de que poderá voltar quantas vezes forem necessárias para confrontar seus pesadelos e arrumar suas gavetas. Seu retiro agora é na sua casa, na sua morada… a ALMA!

Paixão, amor e nudez!

 

Ana Beatriz e Thiago se conheceram na infância, estudaram na mesma sala por anos, muitos olhares, alguns esbarrões nos corredores e grandes descobertas. Começaram a namorar, ambos 16 anos, primeira paixão! Ah… o calor da adolescência. Entre hormônios agitados, festinhas na garagem e cineminha de domingo à tarde o inicio da fase adulta. Ingresso na faculdade ela Jornalismo ele Química.

Ana Beatriz contou-me que foi no terceiro ano de faculdade que Thiago fez o pedido, com “o anel” e toda a família presente. Noivaram. Ana em um de nossos encontros, conta que suas amigas a incentivavam a ter “outras experiências”, elas, as amigas justificavam o incentivo dizendo que Ana Beatriz não poderia casar-se sem “aproveitar” um pouco.

Ana Beatriz fez faculdade no interior, Thiago na Capital. Viam-se aos finais de semana. Nos últimos anos, um fim de semana sim outro não, para dedicarem-se aos estudos finais. Festas de faculdade, ah… Sempre um prato cheio para as amigas de Ana. Ana por sua vez, relata aqui no meu acento que sempre se sentiu um “peixe fora d’água” nas festas, nunca gostou de beber, uma taça de vinho e já fica vermelha. Thiago fazia o estilo “nerd”, nas suas pesquisas, gostava mesmo era de show de rock com os amigos e algumas cervejas.

O fim da faculdade chegou e com ele o casamento. A família queria festa, vestido de baile e 500 convidados. Ana Beatriz e Thiago queriam pés no chão. Em uma tarde ensolarada, no sitio do avô de Ana Beatriz, a contra gosto dos familiares, mas com muita felicidade no coração de Ana Beatriz e Thiago, o “sim” autêntico, sincero e muito verdadeiro aconteceu. A paixão da adolescência tinha seu fim, e o inicio do amor se concretizava.

Romance ideal? Até a chegada do amor, amor na sua amplitude e totalidade. Os amigos de ambos não entendiam como o casal que se conheceu na infância, poderia viver assim, como que em um conto de fadas verdadeiro. Na verdade nem Ana Beatriz e Thiago entendiam, foi o que trouxe Ana Beatriz, aqui.

Prometidos um para o outro? É cada vez mais difícil acreditar que existe um alguém que nasceu para completar outro alguém. A tampa e a panela, arroz e feijão, café e leite. A cada novo visitante que recebo, escuto relatos sempre individualistas, sobre o como “se garantem”, como cada um é perfeito, em plena totalidade, por tanto sem a necessidade de encontrar o famoso “alguém” que vai completar.

Falamos da paixão, que faz o sangue ferver, o coração pulsar mais forte, explodir de raiva e chorar rios de saudades. Ah… a paixão representa de forma singular a impulsividade da adolescência. E o amor? Que chega calmo de mansinho, sem fazer soar as trombetas e bumbos, mas que se instala de forma tão sólida, trazendo respeito, compreensão e amadurecimento. E a nudez, tem vez nessa história?

Quando Ana Beatriz chegou a meus acentos, a inquietação que a trouxe era a nudez. Não a nudez física, pois esta pertence à intimidade. Mas a nudez de seus pensamentos, seus desejos, de suas ações, aquela que a deixava inquieta e totalmente confortável… Ana Beatriz encontrou-se com a nudez de Thiago. Encontro tão intenso e profundo ao qual fez Ana Beatriz questionar se era possível. Lembra-se do conto de fadas real? Pois aqui não era bem o conto de fadas, mas a improbabilidade do encontro, o encontro com a essência mais pura… O amor que transcende… Transcende as barreiras sociais, o certo e o errado, as imposições, as regras prontas e as formulas mágicas.

Tão simples, tão puro, tão real que nada tinha de conto de fadas. A nudez da alma, a nudez que perante o outro, Ana Beatriz tornou-se única e total, apenas com o encontro de Thiago torno-se único e única em uma sintonia de totalidade.

Como Djavan bem descreveu:

“Um amor puro

Não sabe a força que tem…”

 Hoje no dia dos namorados, dispa-se de corpo e alma, se entregue a sua totalidade, ame com champanhe na alma, com flores no sorriso e com toda a nudez da sua pele!

Que homem é esse?

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 “Ele”, Guilherme… 36 anos, Gerente de Compras de uma multinacional americana. Hobby: corrida. Nasceu em Belo Horizonte, aos 21 anos conheceu Marina, namoraram, noivaram e casaram-se. Tudo dentro do “roteiro da vida” do homem “bem sucedido”. Até o dia em que tudo se transformou, o dia “D” como Guilherme gosta de relatar sempre que chega aqui.

O dia “D” foi o dia em que Marina pediu categoricamente a separação. Marina de origem simples. Mulher recém “ascendida”, na vida pessoal e profissional. Com muita dedicação e esforço hoje ocupa o cargo de alta executiva de uma grande multinacional. Casal perfeito? Até a ascensão de Marina…

Crise no universo masculino? Bingo! Muito se fala sobre o feminino, o  “empowerment” feminino,  do fim do “patriarcado” e na ascensão do movimento de libertação da mulher em na sociedade, o que consequentemente levou a  perda de status do homem. O arquétipo do homem-herói de um grande conhecido do meu singelo tecido cinza… Jung!

O homem contemporâneo encontra-se  em sofrimento e solidão, com os quais não sabe lidar e muito menos se permite entrar em contato, às vezes permite questionar seu papel atual e sente no seu intimo a necessidade de transformação, mas desconhece os motivos do seu sentir… Esforçando-se para redefinir sua condição  de homem amoroso, pleno e feliz.

 Guilherme chegou até meu acento carregando em si o desencontro, solidão e sofrimento, que a cada encontro tornavam-se mais presente. Confuso, após muitos encontros e como muita dificuldade relatou que em alguns momentos sentiu-se desrespeitado por Marina, que cobrava dele relações sexuais e ele mesmo sem desejo, com baixa autoestima consentia, por medo de ela deixa-lo.

 O contraponto da violência masculina contra as mulheres, como se estivesse em curso uma vingança ou uma guerra para evitar a perda de uma posse. O numero cada vez maior de mulheres no comando das relações, da família, da situação financeira com ausência quase total da figura masculina. O poder do feminino é imenso sobre os homens.

É…, o patriarcado desmorona e com ele se vai todos os valores masculinos antigos. Lá se vão o caçador, o provedor, o conquistador e o guerreiro. Hoje, no ocidente e aqui em meu acento, as mulheres não precisam e não querem isso, ao contrário, muitas mulheres, ainda estão em plena guerra feminista. A maioria, penso eu, deseja um novo homem, cúmplice, parceiro, um igual, seu complemento.

“Os Guilhermes” sabem o que é isso? Como chegar nisso, qual é o seu papel nessa história? Em outro encontro Guilherme confessou:

                “Tenho medo de certas mudanças”!

De onde vem este medo? Como compreender “os Guilhermes”? O patriarcado, instalado há milhares de anos, o predomínio do masculino, a concentração do poder, o homem é ensinado a vencer na vida, a lutar, a prover, a guerrear diariamente. Mas alguém o ensinou a sensibilidade ao invés da assertividade, a chorar sem sentir vergonha, o olhar mais contemplativo do que competitivo? Não é masculino admitir sofrimento, essa mudança é muito recente, e ocorre em desigualdade, entre o universo masculino e o feminino, um verdadeiro vendaval de mudanças nos relacionamentos. Guilherme está no olho do furacão!

Homens, pobres machos, portadores de testículos, que produzem hormônios masculinos, que os tornam mais agressivos desde meninos, preferindo luta e competição. Mas nem só de testículos se fez o homem, o neocórtex, que sobrepuja os cérebros masculinos, e instala o domínio do cognitivo, do racional, aquele que ordena e reordena o comportamento, obrigando a deixar o animal e ascender ao humano, quem sabe ao Divino.

É provável que seja esse o caminho da evolução. Guilherme vive uma revolução nunca vivida por seus ancestrais, à solidão que o trouxe aos meus tecidos é a mais pura essência da angustia do improvável, do desconhecido, seja pela velocidade das mudanças, seja por medo.  Ao mesmo tempo penso que Marina deve ter encontrado outro parceiro meu, pois a sociedade ainda não está preparada para esta mulher recém-ascendida, oprimindo-a.

No meio desta tempestade, o porto futuro parece pedir que homens e mulheres se ancorem no equilíbrio das forças do masculino e do feminino, da velha sabedoria Zen, da totalidade do Yin/Yang; da visão do divino das religiões orientais, em que os deuses apresentam-se nas suas expressões masculinas e femininas( por exemplo: Krishna e Rada) ou mesmo na visão cada vez mais atual de Jung, da individuação,que integra para sermos uno.

Quais serão os desafios dos “Guilhermes” e das “Marinas” que emergirão para equilibrar as relações? Em meio a discursos sobre os meus tecidos, penso que homens e mulheres possuem o mesmo desejo; serem compreendidos e acolhidos. Mas ainda com o maior de todos os desafios das relações, a comunicação!

 Talvez Guilherme encontre outra Marina e Marina encontre outro Guilherme …

Uma doce guerreira…

bolo

Dona Fátima 72 anos de sabedoria. Alegre, sorridente, como de costume trouxe um bolo, colocou sobre a mesa da copa. Um pouco mais cedo havia ido à sua aula de Yoga, hoje uma rotina em sua vida. Foi para sala e encontrou-me. Ah que felicidade! Em encontros anteriores sempre senti sua alegria, sentimento fácil de reconhecer em Dona Fátima pelo seu belo sorriso, hoje mais fácil do que em outros tempos.

A Yoga e os doces fazem parte de uma recente e corajosa transformação, que iniciou há um pouco mais de três anos, quando sua neta a trouxe. Confesso que conheci Dona Fátima um pouco menos sorridente, mas não menos alegre. A alegria é sua “marca registrada”. Casou-se muito nova, foi à segunda esposa de seu falecido marido. Com ele teve três filhos, o primeiro aos dezessete anos e foi mãe dos três filhos do primeiro casamento de seu marido. Netos? Quatorze ao total cuidou e criou três.

De origem humilde, viveu por muitos anos em uma cidade pequena no interior de Minas Gerais. Trabalhou na “roça” a vida inteira, as mãos calejadas eram apenas marcas, sem o peso que já tiveram um dia. Hoje morando com a neta na capital, sua vida é confortável.

Naquele dia um pouco menos sorridente, ao sentar-se percebi sua ansiedade e uma pitada de cansaço.  “Sabe hoje estou coisada”. Falou, falou e só falou de seus calos, já suavizados, no entanto, ainda doloridos, doloridos em sua alma.

Uma vida inteira dedicada aos filhos e marido, ocupando-se exclusivamente a doar-se. Muitos chamariam de amor incondicional. Mas o que é isso mesmo? Talvez uma ideia equivocada de amor? Ou o vazio de uma vida sem “desejos próprios”?

Nossa querida Fátima, dou-se sem nenhuma restrição, física ou emocional, talvez sem nem saber o que era ter um “desejo próprio”. Uma geração que não tinha tempo, para ter tempo de querer. Mas sentia, sentia um profundo desejo em cozinhar. Cozinhar era o seu pequeno “refugio”, doces, sempre os doces!

Agora sem as “obrigações” com a família, em outra fase da vida, “eles” apareceram, todos “eles” os mais profundos ou os mais simples. “Os desejos”, alguns bem possíveis outros nem tanto, mas “eles” passaram a acompanhar Fátima, e claro muitas dificuldades surgiram. Os filhos não entenderam, e Fátima sentia-se cada dia mais triste e infeliz, foi quando sua neta a acolheu. Fátima que sempre cuidou, permitiu-se ser cuidada.

O que fizeram com as relações? “Coisificaram”, cada um tem uma função a realizar, algo que transcende nosso intimo, tão estático que tem a capacidade de paralisar nossos impulsos, nossas emoções, mas sentir é algo inerente ao ser humano. Os sentimentos podem ser “aprisionados” por algum tempo, mas “eles” estarão sempre em você.

Assim surgem os conflitos. Racionaliza-se a vida de um modo que, as funções tornam-se prioridade e os sentimentos e desejos mais genuínos um sonho, às vezes vivido pelo vizinho ora assistido em algum filme, ou apenas uma sensação.

“Hoje estou coisada.

Algo doía tanto e era tão pungente que Fátima, não conseguia achar outra expressão para os “calos da alma”.

Aos poucos e com uma incrível e inabalável força, aquela força que pessoas como Fátima carregam de uma forma suave e muito bela, Fátima deixou florescer seus desejos, dos pequenos aos grandes desafios. Assim como seus bolos, pequenos e simples ou grandes e majestosos, mas sempre com a função de adoçar a vida!

Amar e ser amado…

Jade, 31 anos, profissionalmente realizada, independente, bem sucedida, bonita, costumeiramente falante, mas naquele dia chegou calada. Senti em seu semblante algo diferente. Um copo de água?       “ Não obrigada!”

Ao sentar-se senti sua tristeza, permaneceu por volta de uns 10 minutos chorando. A cada lágrima sua tristeza perdia força, um ultimo soluço e pronto… Ao meu lado, sobre a mesa de apoio, Jade alcançou a caixa de lenços, enxugou o rosto e falou, falou por horas, a cada palavra a revelação surgia…

Um pouco de amenidades e logo “Ele” surgiu em seu relato… “Ele” tinha nome, idade e endereço. Jovem, bem sucedido, recém-separado, carreira promissora. Casal perfeito? Eu diria que sim, senão fosse por um detalhe… O EXCESSO!

Chega um momento em que algo acontece, perde-se a ingenuidade nas relações. No trabalho, amor (paixão), amizades, família, etc. Após o “sonho dourado” da adolescência, quando a chamada fase adulta inicia, o “cuidado” aparece. Cuidado com o que se fala para quem, a quem se destina a intimidade, segredos, projetos, pensamentos, ideias e claro racionaliza-se o AMOR!

Após a descoberta que o sonho de mudar o mundo, ter amigos de infância e viver um grande, eterno e verdadeiro amor não é tão simples como nos filmes, a “armadura” entra em cena, em alguns mais rígida, em outros um pouco mais flexível, mas ainda assim uma armadura.

Contra o que mesmo? Contra si mesmo. Contra as expectativas, contra o que se espera que o outro seja contra uma falsa ideia de que  será sempre os mesmos, com os mesmos gostos, assuntos, com a mesma rotina, com as mesmas opiniões, o mesmo riso fácil e olhar motivado perante a vida… A tristeza de Jade justifica-se em volta as suas expectativas sobre seu atual relacionamento, que nem ela intitula de “relação”, mas vive a expectativa de uma.

O ser humano esqueceu-se do real, e se relaciona não só com o virtual, mas com o imaginário. Nesse caso o virtual dá mais força e vida ao imaginário. Conhecer o “príncipe encantado” no Tinder? Saber da vida de seus amigos pelo “FaceBook”? Trocar mensagens pelo “ WhatsApp” com o namorado? Fotos do fim de semana no “Isntagram”? Casal perfeito? “BFF” (sigla para em inglês para melhores amigos para sempre)? O funcionário mais competente?A família do comercial de margarina?

Excesso de cuidado ou a falta do amor? A confusão da autopreservação e da cristalização do amor nas relações. Como quem  carrega um tesouro valioso o qual pode ser roubado a qualquer momento.

Abra as portas, abra os olhos, libere todo o pensamento e toda a atração à ilusão, mantenha apenas o amor, aquele que está escondido em você, no seu “sonho dourado” da adolescência. Deixe fazer florir o sorriso em seus lábios, acolha com suavidade, mas coloque intensidade as verdades das relações, sem armaduras.

Ajude  as “Jades” a acolher a si mesma na simplicidade do coração, sem necessidade de questões e nem respostas apenas no amor. No amor que se oferece, no amor que se vivência. Que a Jade possa retirar as “cascas” que a limitam. Que possa se deixar para trás e abrir espaço na sua mente.

A sociedade no ápice do materialismo, modismo e outros “ismo”, rótula e tentar definir, talvez medir padrões… Observe se é feliz, observe se é amado, sinta o amor intenso e profundo, não duvide deste poder. Ainda lidamos com pessoas muito duras, em processo de autotransformação.

Com palavras, atitudes de paz, amor e conforto, observei que se você mudar, as pessoas comentam a sua mudança e te enxergam como pontes para novas possibilidades.

A transformação do futuro provém  do amor, aquele que se esconde aquele que se tem receio de darIrradie amor no coração e na sua mente, ressuscite entre os “mortos-vivos” da internet, regenere o amor, nada pode manchar a sua cede de amor.

“Quanto mais amor se dá, mais se recebe.”Doação e oferta, nada vale sem amor nas relações, amor de amigo, amor de família que cuida e acolhe, amor em amar o que se faz, amor ao próximo,… Não há outro objetivo, não há outro sentido, acolha todo o perfume que exala deste amor.Comungue a vida e seus ciclos de amor, ora intempestivos, ora maduros.

As lágrimas de Jade evaporaram e entraram no ciclo de condensação que a libertou da tristeza que a trouxe em meu assento. Jade não permite mais perder-se de sua essência, despida da ilusão, queimou e transmutou o jogo e o resto, pois sem amor não há perfume nem consciência… Todo o resto é apenas jogo, todo o resto é apenas nada.

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